sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Costuras

Tantos corpos, tantas almas
vagando pelas ruas, pelas vias
tecendo suas vidas, de fato
e cada encontro é um bordado, um croché
e cada despedida um remendo, uma costura
e as brigas são nós , nós
já tão distantes que com o tempo
rompem as linhas e se desfazem
e vão tecendo suas sedas, seus trapos
até chegar a derradeira hora
de virar um pano de chão

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Soneto Indignado

O conteúdo não importa
Tanto faz o que estiver aqui
Com ou sem linhas tortas
só precisa procriar e embebedar-si

Um caralho lá, outro acolá
Um fuder bem colocado
Putarias dizendo olá
passam bem o recado

Posso escrever bundas
E se só isso não bastar
digo em alto e bom tom

Foda-se, e a merda vou mandar
Qualquer um que se acha bom
Porque não gosta de pensar

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Insanidades e serenidades

Soll man keine rose pflücken
Weil der Dorn uns stechen kann?

Devemos renunciar a colher uma rosa
Por temor que seu espinho possa nos ferir?
Devemos pensar em nossa morte
e deixar a vida nos fugir?
Devemos nos levar pelos prazeres
e esquecer seu oposto irmão, a dor?

Serenidade , serenidade

A dor e o prazer são reflexos turvos
De uma quimera futurísticamente presente
Assainala-ei-vos presentemente no futuro
e os reflexos hão de amanhecer

Insanidade, insanidade

Viver sem prazer é viver sem dor
viver sem dor é viver sem prazer
pois ambos são faces da mesma moeda
o cara-e-coroa intenso e incesante da vida

Lua de mim

As nuvems escondem a lua cheia
Cheia de tudo, cheia de si
Tudo que pode a rodeia
a esconde, apaga , destrói

Lindo luar, oh! ilusão
a noite vai sem mais tardar
e o sol tira a noção
do quão frio é o amar

Sinto vozes, toco passos
escuto gostos, vejo rastros
do caminho a seguir

Sigo-o , mesmo em vão
tento crer, na doce ilusão
de que ainda há amor

O que é um Pai?

Em versos, talvez também em verbos
possa falar o que é um pai

Mítico herói valoroso
Infalível e sempre bem disposto
Com o colo cheio de afetos
Ensinando o filho a falar

Depois vem o protetor zeloso
as vezes até chato, cauteloso
com a cabeça cheia de medos
a ver o filho a crescer

Se torna então referência
Quem sabe um velho, careta
Com os olhos cheio de pudores
Observando seu filho a trilhar

E finalmente pessoa, humano
sofredor, pesado e leviano
Com a alma cheia de loucuras
Discordando, o filho, com pesar

Sol de inverno

E acabou, se terminou , pos-se o amor
gélido como um sol matinal
Secos os galhos, as flores, as dores
Em um inverno (emocional) intenso e descomunal

Tornou a tentar iludir, mágico de circo barato
e com suas palavras, seus truques bobos
mostrou a vida como um ato, um jogo
E o amor de aposta, de fato

Ao abrir o botão, sucumbiu se as rosas
E luas cheias, vibrantes, se passaram
Manhãs tornarão a vir, e os dias, ah os dias,
Os longos dias, também haverão de passar

Atores e personagens

Não há remédio no mundo, que cure esta dor
E nem ferida profunda, que nem a do amor
Prostrado e frustrado coração, ainda procuras razão?
Num mar de vazio em vão, não encontrarás nem emoção
E se olhar na canção, ao longe na luz amarela
que flutua no cêu, linda e bela, que chora o amor que perdeu
e chove nas rosas do adeus, talvez encontre um papel
que voa em branco no vento, e gente que passa no centro
atores na roda da vida, que mais parece bandida
que rouba o mel e o véu, da inocência da menina
que se abstrai, que se abstrai, numa docê ilusão perdida
que a vida ainda há de roubar, que para de um branco e puro papel
se torne outra personagem, que passa no centro da cidade.